A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa

Mais um dia que choro a morte de alguém que não conheço. Mais um dia que sinto pessoalmente uma violência que foi feita no corpo de terceiros e que me afeta como se fosse no meu. O direito de pedalar hoje conflita diretamente com a escolha de viver.

Ciclista de dias apenas, já me sinto trânsito, faço parte dele, e entender os seus meandros já se faz necessidade primordial. Ler o Código de Trânsito Brasileiro eu já li, ver matérias sobre segurança no trânsito eu já o fiz, mas como Brasil não é gentil com iniciantes, me joga na cara que eu preciso entender sobretudo as suas próprias formas de operar a noção de leis e direitos com os seus. 

 

"É na angustia que se anuncia o estado do qual se deseja sair, e é a angústia que proclama não bastar o desejo para que daí se saia"  Kierkegaard

 

Direito de andar nas ruas 


Desde o assassinato da Juliana Dias na Paulista, percebo uma crescente nas discussões sobre o uso da bicicleta. Entendo que 90% das discussões não são sobre mobilidade urbana, mas sim sobre o espaço que cada pessoa ocupa e o direito desse indivíduo de ocupá-lo.

"Alguém passeando de bicicleta no meio da rua quando eu quero ir ao meu trabalho, me fere? São Paulo é caótica, será que ela não sabia que pedalava ao suicídio? ele atropelou, mas ela se matou"

Direito impregnado pelo caráter liberal de individualidade, que é uma "(...) conquista progressiva do indivíduo que desenvolve progressiva e esforçadamente a sua virtus". 

Enviesada discussão sobre espaço, porque não é uma discussão sobre o uso coletivo do mesmo, mas sim do quanto o outro invade o próprio quinhão. Discutir-se-ia mobilidade se cada conversa tratasse de como um veículo de grande porte é letal se mal conduzido por um egoísta, seria uma discussão séria caso expusesse as mazelas do nosso transporte público paulista/paulistano/brasileiro, mas se encerrava sempre no argumento raso do suicídio e do erro que andar de bicicleta numa sociedade doente que mata por carros

A argumentação chama de loucura pedalar entre carros, eu chamo de direito de ocupar um espaço que é coletivo. Segundo o já mencionado CTB, 

"Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores"

Contudo, na deliberada distorção do direito regido pelo (des)grassamento do liberal, o indivíduo que possui um automotor automaticamente possui maior direito de ir e vir. E se o seu carro for potente, brilhante, bonito e tiver mais cavalos que uma hípica, aí sim, sua noção de direito pode ser bem mais elástica ainda. 

 

"Se fosse José matando José não tinha sido assim"

 

Quando soube da morte de Wanderson Pereira da Silva, e que teria sido atingido por um carro do filho do homem mais rico da América Latina, já logo imaginei o circo em torno da discussão. 

Se no caso da Juliana Dias pouco foi discutido sobre carros e sua condução irresponsável letalidade in potentia, nesse então, muito menos, visto que o condutor é alguém famoso, rico, e que vende mais contar nas manchetes a reconstrução de sua vida do que questionar as condições do acidente. 

No Brasil não existe tablóide mas nossos jornais se portam como tal. E vai faltar subsídio para entender a colisão, que me recuso de chamar de acidente. Levanto em público as questões que preciso de esclarecimentos, por acreditar numa condução irresponsável que privilegia a poucos no caso:

- Nota do Grupo EBX indica que o ciclista estava atravessando a via. A família da vítima indica que ele morava do mesmo lado onde ocorreu o acidente, portanto, não necessitaria atravessar. E agora José?

- Talvez José pudesse responder ser a perícia tivesse sido realizada. Mas não foi. "não havia medida administrativa para apreender o veículo e não houve recomendação por parte da perícia para que isso fosse feito." 

A foto indica que realmente, esse carro estava muito devagar. 

- O carro foi retirado da delegacia pelo advogado do condutor. Thor teria passado mal depois de ver o estado do corpo do ciclista. O coração da vítima foi parar dentro do carro. Segundo o Código de Processo Penal, o carro não poderia ter sido removido antes de uma perícia. Foi. 

  Art. 6o  Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade policial deverá:   I - dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais;         II - apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais; III - colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias; IV - ouvir o ofendido;   V - ouvir o indiciado, com observância, no que for aplicável, do disposto no Capítulo III do Título Vll, deste Livro, devendo o respectivo termo ser assinado por duas testemunhas que Ihe tenham ouvido a leitura; VI - proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e a acareações;  VII - determinar, se for caso, que se proceda a exame de corpo de delito e a quaisquer outras perícias;

 

Os pertences do morto podiam ser encontrados até essa tarde na Rodovia, segundo reportagem do Terra. 

 

@Eike_Batista Infelizmente aconteceu um acidente fatal. Porém a imprudencia nao foi do Thor

 

O direito de ter direitos


O trânsito mata e mata indistintamente. Mas nesse caso, retomo o que comecei nos primeiros parágrafos sobre o direito. Não importa apurar, afinal, quem é o ciclista? quem é o cara que foi morto? Na morte, enxergo uma série de condições sociais que interagem, mas na condução do caso, classe social é determinante. 

Thor Batista fez o teste do bafômetro, socorreu o que sobrou da vítima, pagará as custas do velório. Fez o que manda a Lei. Socialmente, ter um carro que atinge uma velocidade imcompatível com as vias que pretende transitar é um orgulho, não uma incoerência. 

Segundo minha rude e magoada visão da pena da Lei, nesse caso também foram feridos os Artigos 192 e 193 do CTB, mas quem feriu? Foi alguém que dispõe de mecanismos que no meu entendimento são amorais mas legais de defender-se da mesma Lei de mão pesada contra quem não tem costas quentes. 

Art. 192. Deixar de guardar distância de segurança lateral e frontal entre o seu veículo e os demais, bem como em relação ao bordo da pista, considerando-se, no momento, a velocidade, as condições climáticas do local da circulação e do veículo: Infração - grave; Penalidade - multa. 

 Art. 193. Transitar com o veículo em calçadas, passeios, passarelas, ciclovias, ciclofaixas, ilhas, refúgios, ajardinamentos, canteiros centrais e  divisores de pista de rolamento, acostamentos, marcas de canalização, gramados e jardins públicos: Infração - gravíssima; Penalidade - multa (três vezes)

Quem foi ferido?

Mais um Silva. 

Crise de choro. Crise de raiva, e crise de vergonha. Vergonha porque sobra pizza num país de famintos. Famélico de lei, quando impunidade é uma certeza, Lei cega de faca amolada pros seus, mas não para todos. 

Morre um ciclista, mormente um cidadão e a esperança de que a justiça vista-se da Lei para defender a todos. 


Família Batista vai custear a reconstituição facial da vítima


Ser o 7o. homem mais rico do mundo em um país que ainda se morre de malária deveria dar vergonha, mas deu capa de revista. Enriquecer, para Eike Batista, é glorioso. Glorioso seria viver num país que desse acesso aos direitos fundamentais não colidisse com os zeros de fortuna de poucos. 

Não posso e não me atrevo mensurar a importância de um enterro cristão para quem crê que ele seja importante. Mas, acredito que reconstituir a face de uma pessoa que morre sendo acusada por ser vítima, condição somente possível no Brasil, é uma analogia maldosa com maquear o morto para não enterrar o bom mocismo da figura tétrica de Eike Batista, o homem honesto, não sonegador, trabalhador, que se fez por si mesmo, que não gostaria de ter sua imagem trincada por uma traquinagem de seu filho. O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções. 

Melhor que morra o Silva, que desfigurado, me representa ainda mais nesse domingo: morreu pedalando, morreu sem cara, num país que só funciona para quem tem nome e posse. 

E, seguindo a lógica operandi, um dia será a minha mãe que irá chorar por isso. 

Posted by Patricia Pimenta
 

Balada das meninas de bicicleta

Meninas de bicicleta 
Que fagueiras pedalais 
Quero ser vosso poeta! 


Ó transitórias estátuas 
Esfuziantes de azul 
Louras com peles mulatas 
Princesas da zona sul: 

As vossas jovens figuras 
Retesadas nos selins 
Me prendem, com serem puras 
Em redondilhas afins. 

Bicicleta-horizonte-liberdade

Que lindas são vossas quilhas 
Quando as praias abordais! 
E as nervosas panturrilhas 
Na rotação dos pedais: 
Que douradas maravilhas! 
Bicicletai, meninada 
Aos ventos do Arpoador 
Solta a flâmula agitada 
Das cabeleiras em flor 


Uma correndo à gandaia 
Outra com jeito de séria 
Mostrando as pernas sem saia 
Feitas da mesma matéria. 
Permanecei! vós que sois 
O que o mundo não tem mais 
Juventude de maiôs 
Sobre máquinas da paz 
Enxames de namoradas 
Ao sol de Copacabana 
Centauresas transpiradas 
Que o leque do mar abana! 
A vós o canto que inflama 
Os meus trint'anos, meninas 
Velozes massas em chama 

Explodindo em vitaminas. 
Bem haja a vossa saúde 
À humanidade inquieta 
Vós cuja ardente virtude 
Preservais muito amiúde 
Com um selim de bicicleta 
Vós que levais tantas raças 

 

Nos corpos firmes e crus: 
Meninas, soltai as alças 
Bicicletai seios nus! 

 


No vosso rastro persiste 
O mesmo eterno poeta 
Um poeta - essa coisa triste 
Escravizada à beleza 
Que em vosso rastro persiste, 
Levando a sua tristeza 
No quadro da bicicleta

Posted by Patricia Pimenta
 

Minha Maria

Maria Método pegava o trem todo dia no mesmo horário. Mas não tão cedo quanto Maria Bancária, nem tão tarde quanto Maria Puta. 

Tinha controle de horário como Bancária, e algum prazer como a Puta, mas as semelhanças eram maiores que o batismo. 

Críticas...fazia bem. E quantas críticas tinha às suas homônimas. Bancária por sua mediocridade e sabor de afasia, à Puta por suas escolhas reprováveis e seus excessos. Mas conseguia ser mais complacente com a Puta, porque ela própria e a Bancária tiveram possibilidades maiores de escolha. 

A Puta não escolhia seus clientes com tanto método: só respondia ao critério mínimo dos cobres. Já a Bancária...essa era cínica, escolheu os que tinham mais cobres. Maria Método escolhia fazer bem para os grandes. E esses grandes eram os melhores: ela sabia quem eles eram. 

Metódica de filiação, optou pelos de mais cobres que lhe dariam mais prazer, e como toda Maria, esperava um tanto de reconhecimento, assim como o que recebia. 

No seu trajeto, pensava no porque da Puta não mudar de vida. Pensava no porque da Bancária não ir mais além, mesmo sendo cínica, não era de todo má. 

Vangloriava-se em pensamento o quanto tinha liberdade para gozar como a Puta e consumir como a Bancária. E ainda podia escolher a hora de dormir como uma, e não se submeter tanto quanto a outra. 

Office-at-night-edward-hopper

 

Seu método a levara longe.        

Mas não longe de ser puta nem calculista e bancária         

 

 

 

Mas, nos entremeios de sua divagação, se lembrou de quantas vezes seu sorriso virou moeda,de tantas outras em que deu a mão quando, na verdade, quis torcer os braços. Se contorceu quando pensou em fazer parte do mundo empresarial, obsceno e doentio sem similar no universo do sexo. Pensou em ser a engrenagem, marionete competente e sistemático, que fazia bem para quem faz muito mal. 

 

Well it's full speed babyIn the wrong direction
There's a few more bruises
If that's the way
You insist on heading

 

Era analítica como o que...não pode ignorar o fato de que vendia seus sonhos e convicções tão barato quanto as partes da Puta. Que sentia fastio ao rever os desejos de ontem como a tesa Bancária. Seu hoje urge na forma de um contracheque. Cada uma escolhe o que dar para não receber de volta. 

E numa mistura de agonia e não pertencimento, só bateu o cartão mais umas mil vezes. 

 

 

Feito no caminho de casa, pensando no belíssimo "Duas Marias" de Jorge de Barros

Transcrito ouvindo Mary Jane (Alanis Morissette)

Office at night (Edward Hooper)

 

 

Posted by Patricia Pimenta
 

Bibliotecas escolares: o bibliotecário, seu papel e as urgências do tema

Texto do meu Bibliolab, apresentado dia 28 de setembro de 2011, na VI Semana de Biblioteconomia ECA/USP. 

Analfabeto

“LEI Nº 12.244 DE 24 DE MAIO DE 2010.

 Dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País.

 O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o  As instituições de ensino públicas e privadas de todos os sistemas de ensino do País contarão com bibliotecas, nos termos desta Lei.

Art. 2o  Para os fins desta Lei, considera-se biblioteca escolar a coleção de livros, materiais videográficos e documentos registrados em qualquer suporte destinados a consulta, pesquisa, estudo ou leitura. 

Parágrafo único.  Será obrigatório um acervo de livros na biblioteca de, no mínimo, um título para cada aluno matriculado, cabendo ao respectivo sistema de ensino determinar a ampliação deste acervo conforme sua realidade, bem como divulgar orientações de guarda, preservação, organização e funcionamento das bibliotecas escolares.

Art. 3o Os sistemas de ensino do País deverão desenvolver esforços progressivos para que a universalização das bibliotecas escolares, nos termos previstos nesta Lei, seja efetivada num prazo máximo de dez anos, respeitada a profissão de Bibliotecário, disciplinada pelas Leis nos 4.084, de 30 de junho de 1962, e 9.674, de 25 de junho de 1998.

Art. 4o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 24 de maio de 2010; 189o da Independência e 122o da República” <!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]-->


         Início minha discussão ä respeito da Lei 12.244 de maio de 2010, trazendo trechos do texto da Diretora Geral da UNESCO sobre o Dia Internacional da Alfabetização, comemorado no dia 8 de setembro:

“A alfabetização é pré-requisito para a paz, visto que acarreta vários benefícios nas esferas humanas, cultural, social, política e econômica (...). Segundo estatísticas recentes (2009), 793 milhões de adultos carecem de alfabetização básica, a maioria mulheres e crianças. Essa situação inaceitável impede todos os esforços para reduzir a pobreza e estimular o desenvolvimento humano”<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]-->

 

            Tratar de Biblioteca Escolar é tratar não somente do acervo, do espaço e da sobrevivência e porque não da luta pelo reconhecimento de sua importância no processo educativo. Mas tratar diretamente do público, sendo no caso uma comunidade delimitada pelos muros escolares, tendo por necessidade primeira o apoio a atividades didáticas.

Então, entendo que tratar de biblioteca nesse contexto é, sobretudo tratar de educação. Falar de alfabetização na educação é discutir o mais básico dos atos daqueles que pretendem educar para os que necessitam ir a escola aprender e apreeender.

Irina destaca 3 pontos sobre o porque a alfabetização é importante para a paz e o desenvolvimento:

 - Dá maior autonomia aos indivíduos, permitindo a confiança necessária para buscar informações importantes e fazer escolhas esclarecidas, que têm impacto direto em suas famílias e comunidades;

- Condição imprescindível para que os indivíduos participem de forma eficaz nos processos democráticos, tenham uma voz nas organizações comunitárias, ganhem conhecimento político e, portanto, contribuam para a formulação de políticas públicas de qualidade;

- Programas de alfabetização fortalecem a compreensão mútua ao permitir que pessoas compartilhem idéias, expressar, preservar e desenvolver a identidade cultural e diversidade”

            Termos como diversidade, democracia, autonomia e confiança tornam os textos leves e adequados para divulgações massivas por serem clamores universais e pela replicância dessas necessidades em toda sociedade complexa. Contudo, antes de trazer calma, ele me inquieta, mas de certa forma me ajuda concatenar como me apresentar com um tema tão caro e complexo de forma mais objetiva. Penso então abordar em eixos:

- Atuação

- Formação

- Papel e responsabilidade do bibliotecário no processo educativo

            Pela brevidade que a palestra pede, serei panorâmica em alguns pontos, mas pretendendo aqui ao menos introduzir teóricos, teorias e práticas de áreas de conhecimento como pedagogia (representada por Emilia Ferreiro, Paulo Freire, Morin, Telma Weisz), história e sociologia (José Murilo de Carvalho), Biblioteconomia (Marta Valentim), dentre outro, que são áreas complementares e irmãs que parecem tratar-se como Esaú e Jacó.

Educação e biblioteca escolar possuem relações óbvias. A educação brasileira que avança em índices numéricos e alcança a excelência internacional com programas de universalização dos diferentes níveis de ensino (por vezes apenas pretensos e pretensiosos), traz agora no seus hol de obrigatoriedades, a abertura e convivência física com a biblioteca escolar. Aquela que, assim como a escola, historicamente denota a importância simbólica e material que governos e sociedades concedem a educação. E no atual cenário, denotam que expandir não automaticamente é bem qualificar e de fato democratizar educação e acesso à cultura letrada. Explico.

            A Lei 12.244 trata da Universalização das Bibliotecas nas instituições escolares de ensino no Brasil.

            A sanção em maio de 2010 eclode comemorações no universo bibliotecário. Twittadas e “curtidas” denotam o quanto era esperada tal decisão, afinal a educação é uma grande preocupação da nossa área, ao menos é interessante que o pareça.

            A educação aqui relacionada à consciente tomada de posição sobre os direitos sociais mínimos de uma sociedade que se pretenda equânime, mas também a sua importância econômica e numérica, pois aumentar e positivar índices de desenvolvimento talvez amenize nossa responsabilidade com o grande cisma nacional, a desigualdade, inerente ã exclusão na educação.

Irei então tratar de índices para falar do que não é somente indício.

A maioria dos brasileiros entre 15 e 64 anos que estudaram da 1ª à 4ª série (52%) atingem no máximo o grau rudimentar de alfabetismo. E ainda mais grave: 9% destes indivíduos podem ser considerados analfabetos absolutos em termos de habilidades de leitura/escrita, não conseguindo nem mesmo decodificar palavras e frases, ainda que tenham cursado até a 4 série do ensino fundamental<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]-->. Dentre os que cursam ou cursaram da 5ª à 8ª série,apenas 17% podem ser considerados plenamente alfabetizados.  24% dos que completaram entre 5 e 8 séries do Ensino Fundamental ainda permanecem no nível rudimentar.

Apenas 71% dos que chegaram ao Ensino Superior dominam a leitura/ escrita e podem ser considerados alfabetizados plenamente.

A renda da família é um fator determinante na distribuição do alfabetismo. Famílias com maior nível de renda têm ou tiveram, em sua grande maioria, acesso a maiores níveis de escolarização há várias gerações, além de maior oportunidade de acesso à informação e à cultura. Com renda de cinco salários mínimos, tem-se nessa faixa o alfabetismo pleno, em contraste, analfabetismo funcional predomina entre pessoas pertencentes a famílias com renda de até um salário mínimo, sendo que 20% deste grupo estão no nível de analfabetismo absoluto.

“Está comprovado que bibliotecários e professores, ao trabalharem em conjunto, influenciam o desempenho dos estudantes para o alcance de maior nível de literacia na leitura e escrita, aprendizagem, resolução de problemas, uso da informação e das tecnologias de comunicação e informação”<!--[if !supportFootnotes]-->[4]<!--[endif]-->

Trazendo novamente os eixos que escolhi para minha fala, grito:

- Realmente podemos dizer que a classe bibliotecária está de fato ciente da problemática situação que a atuação na educação representa? A parte às comemorações sobre a universalização das bibliotecas, estamos preparados e preocupados para lidar com uma demanda tão carente ?

- O descaso com as bibliotecas escolares já existentes, a reformulação para “Sala de Leitura” e outras medidas em políticas públicas já haviam nos sensibilizado a Classe de forma positiva ou negativa? E quando digo classe não espero contar apenas com a representatividade de Conselhos, mas sim com ações, problematizações, textos e opiniões acerca daqueles que na biblioteconomia são formados.

- A proposição de uma formação “fast thinking” trata de atendimento de demanda... De qual demanda realmente? a dos usuários que agora teriam uma biblioteca ä disposição ou a de mercado? De editoras, que ampliam o público consumidor e podem dar vazão a sua produção cada dia mais crescente? E a oferta? De postos de trabalho em escala nacional em números exponenciais?

Jogando com os termos oferta e demanda, parafraseando a lúcida colocação de Castrillon (2011), a demanda que devemos focar é a de público, pois é equivocado imaginar que apenas a oferta de bibliotecas irá auxiliar na melhoria da educação. Melhora em números percentuais, mas a desigualdade mostra que para desvelá-la é interessante também ser sensível a seus números absolutos (ainda que índices tragam números positivados, a desigualdade persiste).

Ora, mercadologicamente pensando, e a guisa de resumo, não foco aqui nas diferenças regionais de distribuição, acesso a livros de forma gratuita ou não, mas verificando que nas últimas duas décadas o acesso a textos em diferenciados suportes e também o número de bibliotecas é expandido e requalificado, trazem os índices que ainda assim, o letramento é crônica ferida que manter-se-há exposta em nossa sociedade, pois acesso e qualidade dele são fatores de exclusão social, condição desumana da qual nacionalmente desapontamos.

Nossa formação técnica generalista não parece alcançar a complexidade do desafio que iremos enfrentar. A escola nunca é melhor do que a sociedade em que ela está (Weisz, 2008, p.6). Parafraseio dizendo que a Biblioteca (não como acervo, mas como serviço a serviço da cidadania) também não. E atualmente, escola e biblioteca fracassam e ouvem o reverberar na sociedade por gerações déficits educacionais, lesando indivíduos no direito histórico, cultural e, portanto social que é a leitura, tomara um dia que auxilie também no direito político.

Leitura aqui entendida como histórico instrumento de poder e exclusão social, que portanto:

“(...) não é boa ou ruim em si mesma, mas um direito, não é um luxo, nem uma obrigação. Não é um luxo das elites que possa [somente] ser associado a prazer e recreação, tampouco uma obrigação imposta pela escola. É um direito de todos, que, além disso, permite um exercício pleno da democracia” (Ferreiro, 1996, p.18).

 

“Pede-se pouco do profissional e muito da sociedade” (Valentim, 2000, p.134).

Devemos como bibliotecários fazer uma reflexão constante e reconhecer que há um problema. E aqui não incito ou sugiro suplantar o papel do professor, nem tampouco virar um mero discursista de conceitos que não são próprios de nossa área. Mas é refletir sobre esses, e então trazer a sua realidade aquilo que possa de fato transformar sua prática. Devemos atentar que o problema existe e que seremos componentes do ambiente escolar, dialogar com educadores, favorecer a oportunidade de no processo educativo formar-se leitores e escritores.

Frases de efeito e sínteses motivacionais nublam o real enfrentamento das questões: educação e possibilidades versus entraves no acesso democrático da leitura e escrita. “O sujeito não vai transformar sua ação, mas contextualizá-la” (Barbosa, 1997, p. 32)<!--[if !supportFootnotes]-->[5]<!--[endif]-->. E não mais nos perdermos em mares normativos que deixam acervos brilhando com toda nossa qualidade de processamento técnico para não serem utilizados por ninguém, e também em outros mares de frases feitas e lugares-comum do trato da boa educação.

 

Cavalo dado se olha os dentes...interessa-nos mesmo olhar?

 

A pena pesada da Lei que coloca limite temporal para sua execução (10 anos a contar da sanção) e limite técnico (profissional diplomado bibliotecário), pode de fato esperançar, tendo como premissa que medidas políticas dessa monta trazem vultuosas mudanças, e com sorte melhorias, a uma Classe profissional.

Contudo, esse substancial aumento do número de bibliotecas remete certeiramente ä práticas políticas não pouco usuais em nosso país, e que coube dentro de citação de Canclini sobre práticas políticas na América Latina:

“O favor é tão antimoderno quanto a escravidão, porém mais simpático e suscetível de unir-se ao liberalismo por seu ingrediente de arbítrio, pelo jogo fluído de estima e auto estima ao qual submete o interesse material(...) o favor pratica a dependência da pessoa, a exceção ä regra, a cultura interessada (...)”

 

Se meu texto versa totalmente sobre a alfabetização como forma de incluir o indivíduo nas discussões públicas e políticas, careço esclarecer que meu entendimento negativo sobre a demora, e paradoxalmente, precoce sanção dessa Lei não acontece por tratar de universalização de Unidades de Informação, mas pela acriticidade com que a informação parece ser tratada nos meios de interesse.

Trago então questões mais pontuais sobre as quais identifico problemas:

- Tendência de formação voltada para tecnologias (demanda de mercado) sem ênfase ä educação e a biblioteca escolar (cursos públicos e privados)

- Profissionais com os déficits de leitura (bibliotecário não-leitor; professor não-leitor)

- Leitura sendo “ensinada” em caráter de oficina e curso rápido (políticas públicas rápidas, enfáticas e performativas na democracia como espetáculo)

- Qual (is) maior impacto da geração de tantos postos de trabalho? Cabide de empregos? maior rodízio de profissionais? Profissionais em busca de colocação e não de crítica atuação?

- Como serão constituídos a priore esses acervos? (compras massivas de livros para o país todo?) Plano Nacional da Biblioteca da Escola é impositivo do Ministério da Educação? Como intervir coletivamente para uma maior intervenção bibliotecária nesse processo de escolha dos livros?

- Que interesse tardio e ao mesmo tempo impulsivo por parte de quem pouco se importa historicamente com a Biblioteca Escolar?

- “Sentindo-se necessário, comandava com submissão”<!--[if !supportFootnotes]-->[6]<!--[endif]-->: combater com prática e discurso a apatia tácita da Classe bibliotecária, e tratar entre os pares sobre quais as expectativas e obrigações como profissionais de forma honesta e crítica. Não deve ser analisado como questão de dom e missão profética daqueles que se enveredam pela Biblioteca, mas sim aqueles que se identificam com o ambiente e problemáticas escolares e que buscam por formação adequada externa ao tecnicismo e normalismo próprio do exercício descompromissado e restritivo que é possível ter na área.

 Um profissional ético de fato

inquire – compromete e propõe

Encerrando então minha fala, trato então dos deveres que acredito o profissional Bibliotecário ter de atentar em sua prática, e aqui especifico de biblioteca escolar, mas que também como profissional da informação que atue em qualquer outro setor, possa ter como premissa que:

“Primeiro nascem os deveres; só a partir dos deveres cabe chamar direito ä capacidade de exigência do dever alheio. Ao admitir os próprios deveres, adota-se o ponto de vista de quem reconhece o outro não de quem tolera, (...) [pois] é arrogante, prepotente e não democrático tolerar o diferente” (Capella, 1996, p.14 apud Castrillon, 2011, p.42).

 

- Devemos como profissionais da informação preocupar-se com a própria formação e com a do público que iremos lidar, para rompermos com a tradição de “ensinar como aprendemos” (Castrillon, 2011, p.24). Nosso curso fornece espaços para reflexão coletiva sobre a dimensão político-pedagógica da nossa atuação em biblioteca escolar? Respondo que não.

- Devemos intentar que a alfabetização deva acontecer de fato na escola, para que o indivíduo da escola saia alfabetizado para qualquer suporte, e que o contato que esse venha a ter com a cultura letrada não seja de maneira exclusivamente escolarizada: formar para a vida.

- Devemos lutar por e comemorar sim o acesso à novas tecnologias, mas imputar a elas o qualificativo de democráticas é acrítico e personalista, e nem tampouco esperarmos dela efeitos mágicos (Ferreiro, 1996, p.39).

- Devemos não se esquecer da variedade e problemáticas dos usuários: “alguns não chegaram sequer aos jornais, aos livros, e a bibliotecas enquanto há quem corra atrás de hipertextos, correio eletrônico” (Ferreiro, 1996, p.63).

- Devemos como profissionais atuar de fato e sem pieguismos com nossas ferramentas em conjunto com educadores, pois nosso silêncio e a apatia perante a distinção social que vivem alfabetizados dos não alfabetizados é cínica. Não é se calar somente como profissional é ser cúmplice como indivíduo.

- NÂO DEVEMOS NUNCA PERSONALIZAR OS SUCESSOS E DESPERSONALIZAR RESPONSABILIDADES

- Devemos fazer com que nossa atuação supere o “(...) estritamente técnico-profissional” e se reconheça que esse trabalho permite a outros transcender e melhorar sua condição humana “(Castrillon, 2011, p.40).

<!--[if !supportFootnotes]-->

<!--[endif]-->

<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]--> Irina Bokova, Diretora Geral da UNESCO em Manifesto sobre a Alfabetização, lançado dia 8 de setembro de 2011.

 [3] Relatório INAF de Leitura/Escrita e Matemática, disponível em: http://www.ipm.org.br/ipmb_pagina.php?mpg=4.02.02.00.00&ver=por

<!--[if !supportFootnotes]-->[4]<!--[endif]--> Trecho amplo e socialmente conforme do Manifesto para Biblioteca Escolar da IFLA/UNESCO versão 1999, traduzida para português em 2002. Disponível em: www.ifla.org/VII/s11/pubs/portuguese-brazil.pdf

<!--[if !supportFootnotes]-->[5]<!--[endif]--> No artigo “Ação cultural do bibliotecário”, Maria Cristina Barbosa trata nesse trecho lucidamente sobre a auto imagem negativa que o bibliotecário tinha de si, começa a usar o rótulo “animador cultural”, como que um diferencial particular. Entretanto, é uma expansão da atuação mais contextualizada, pensada, para aquele ambiente, e não um “plus” no currículo.

<!--[if !supportFootnotes]-->[6]<!--[endif]--> Frase do narrador Paulo Honório (personagem do livro São Bernardo) quando tratava de seu amigo intelectual João Gondim, na empreitada de escrever a s memórias de tão insolente personagem. Aqui, fiz a associação com o profissional bibliotecário, que intelectual assim como Gondim (“àquele que escreve tudo o que mandam”), traduz em números os possíveis sucessos, e ignora em práticas às mudanças perante hediondos fracassos. 

 

Posted by Patricia Pimenta
 

Estrangeira na própria casa

Fechei um dos ciclos mais bonitos que já vivenciei na Universidade de São Paulo. 

Ciclos, porque conectados ao semestre acadêmico, que com obrigações e delícias, povoa conversas e horários livres. 

Depois de 4 anos era natural que a anestesia do emprego, a vida corrida, o seguro anonimato do não li com a imprudência do não fiz tivessem matizado minha vida acadêmica. Em gris. 

Mudei o rumo. Rumei pra lá. 

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FFLCH. Sigla simbólica. Símbolo problemático. 

Turbulenta

Instável

Barulhenta

 

Gera, aje e reaje com suas questões, questões do mundo. Da sala de aula, da educação. Dos seus limites, dos seus alcances. 

Assembleiausp-ae-20111110-700

Picaretada, eu encontrei. Aula ruim, também. Mas, senti o que achei que não mais conseguisse e talvez nem devesse...me lembrei o que é vibrar com um texto, me apaixonar por um livro...perceber que alguém se dedicou em letras a transformar o mundo. 

Foi perder a hora na biblioteca...perder o sono. 

Não era minha unidade de origem. Mas minha unidade tampouco é minha origem. 

A greve, a revolta com o reitor...não poderia ter outros atores, não caberia em outro cenário. Nessa profusão de idéias, entender ou confundir-me, mas viver essa errática babel de discussões vivas ou silêncios, gritos ou surdez, excessos ou omissões. Mas, viver essa loucura de dentro. Judicativo de vivência. 

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Convivendo, vivendo, entendi o que motivou os recentes acontecimentos na Universidade. Entendi a greve, e mesmo se não concordasse, respeitaria as motivações dos mais envolvidos. Ler o que li, refletir com isso, escutar, ver... estranho seria se eu não saísse diferente. 

Com todos os seus problemas, posso opinar humildemente que é uma das unidades mais bonitas para estar, e insurgem sim, porque são de fato de humanas. 


Oficialmente hoje entrei de férias. Estou exausta, mas muito realizada.

Quero sentir isso sempre. E já sei onde buscar.

 

FFLCH, em 2012 eu vou voltar. 

 

Posted by Patricia Pimenta
 

Tolos e seus ouros

 

 

Tava muito chateada...várias barbaridades que freneticamente me tensionei a ler, me seduziam responder sobre a opressão policial na USP. Frenético ritmo porque uma chuva de textos com “a verdade sobre”, “estive lá”, e os diletantes comentários sobre quem não esteve e ainda assim se sentia aviltado pela ousadia da molecada na USP urravam na minha timeline me exigindo uma posição, me cobrando sistematicamente que eu me colocasse, só que meu tempo e energia já não dariam mais conta de tanto ruído e pouca informação.

Da madrugada para o dia, a polícia invade a Reitoria, invadida por estudantes que se sentiram invadidos pela presença dos primeiros no campus. E, também da madrugada para o dia, nós alunos da Universidade de São Paulo passamos de estandartes positivos da educação que leva até lá (esse lá seria o sucesso, mas é um lá muito relativo...) a maconheiros, marginais, desordeiros, e até ingratos com a educação pública e gratuita que nos deram.

Destaca, mas não explica, a ambigüidade da nossa posição como estudantes de uma universidade pública: elite? não-elite? de que qualidade de elite se trata? a fluída fronteira entre “ser elite intelectual sendo fudido financeiramente” com o “ser elite intelectual e gozar de todo Ovomaltine que uma criança pôde ter”, ou mesmo de ser um paquiderme que não sabe riscar o ó na areia, com grana ou sem.

A FUVEST, que pode nos suscitar um dúbio sentimento meritocrata e sincronamente um orgulho do mérito real pelo esforço de conseguir uma vaga em uma universidade conceituada e gratuita, passou de desafio e meta a mero filtro de playboy.

Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...”

 Porra, e somente nessa madrugada... sensação minha ou apenas agora isso incomodou uma boa parcela sociedade que financia seus filhos por anos para que ele passe na própria Fuvest? O revanchismo mostra suas garras.  

Passamos de bom exemplo à mascarados fedorentos, inocente seguidores de um séqüito maléfico de mauricinhos trajados de grife que queriam fumar seu beck. Mas quanto reducionismo...

Não sou leviana de pensar que esse reducionismo se encerra nesse episódio, nem que se inaugura nele. Somos atores na sociedade e consumidores dessa mídia que transmitiu extra muros da Universidade uma versão dos acontecimentos: para alguns, uma aversão. Mostrando- escondendo o excepcional, mas excepcional aos olhos deles. Que beleza plástica pros jornais vespertinos e pros fotógrafos dos impressos teria uma borrachada do policial ao invés de uma desocupação tranqüila como deveria ter sido.

A receita para a pasteurização do tema estava dada: muitas emissoras, sites, no afã de audiência, uma audiência que estava gozando da resposta crua e cruel àqueles que desrespeitavam seu dinheiro público não estudando e badernando. Quando trabalhei na maravilhosa – e também violentada em sua autonomia e importância – TV Cultura, cheguei a me posicionar contra o Bordieu nesse mesmo livro que comentei acima, mas hoje, ainda que eu acredite que mais importante que a fonte é o uso que fazemos dela, tenho que ressaltar que estou assustada com o reverberar de posições unilaterais daqueles que pretendem informar, e de como isso é digerido por aqueles que se pretendem informados.

Esclareço que essa mídia que me refiro aqui não foi a única forma de deturpação da discussão. Estudantes da própria Universidade, por estarem lá dentro e acessarem com facilidade assembléias, fóruns de discussão por email, enfim, por estarem no ambiente palco das tensões, eram em potencia aqueles que deveriam travar debates mais decentes, e que houvessem opiniões mais aguerridas, mas que fossem consubstanciadas em informações mais precisas do que estava acontecendo na Cidade Universitária. Tendo o privilégio de participarem da problemática, prefeririam butequizar suas frases feitas, e pela Internet, porque gasta tempo e culhão se colocar publicamente em locais tensos. Nem todo mundo se dispõe a talvez se indispor: quem fez isso foi fichado e esteve preso.

“Eu que não me sento
no trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...”

A gente poderia contribuir fundamentalmente para o debate se, como alunos, preferissemos o esclarecimento e fossemos menos egoístas em enaltecer o que eu concordo e esfacelar o que não é caro para mim. Chamar de imprensa marrom é simples, e não raro é fato, mas convenhamos que alimentamos nossos perfis na internet desses mesmos textos, dos mesmos caras, dando moral para que apresentem o que pensam representar o "nós".

Meu texto então trata da nossa responsabilidade como uspiano em se colocar.  

Houve quem fosse sério ao se colocar... houve também quem não fosse, mas que necessitava papaguear que estava interagindo em uma questão de relevo nos trending topics do Twitter. E eu só me sentindo engolida por tanta raiva e desabono de quem não se preocupou em contemplar vários ângulos da questão para sair incendiando comparações maldosas. Ainda que eu discorde bastante de muitas posições que li nesses dois dias, eu tive acesso à elas e ao que eu vi, e usarei de meu privilégio de espectadora de posicionamentos diversos, para rebater alguns argumentos, e pretender que debatam comigo para clarearmos nossos senãos.

“Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...”

Se a imprensa fez uma leitura equivocada do acontecido, (e minha opinião foi de que em grande maioria fez, ainda mais no dia da Retomada), se ela cristaliza lugares comuns e silencia nossa dissonância, nosso silêncio vira validação, e o re-post cúmplice. Sublinhar opiniões (e impropérios) alheios não te faz partícipe porque não é uma colocação sua, num alinhamento acrítico: se existe identificação, conseguiria você externalizar com suas palavras o porque dela?  pergunto isso porque é muito criticada a aparente osmose dos estudantes na adesão da greve, mas chamar a todos estudantes de maconheiros e associar toda a moviemtação política ao privilégio do consumo de drogas a vontade na Universidade é impensado e mal educado, deixando claro que pouco te importa que o uso de drogas esteja se tornando assunto de saúde pública e não mais factóide para caricaturar usuário, e pouco te importa pelo que bradam: se bradam, são bárbaros e ponto.

"Meu parecer de leigo é que [a polícia] cumpriu seu múnus" (Rodas)

Aos meus amigos tudo, aos meus inimigos, a Lei

É possível pode afirmar que os alunos detidos são mimados, é um direito que lhe compete continuar megafoneando palavras de efeito, seu direito de opinião está garantido, mas a opinião é bem discutível, e vou lançar dos meus argumentos para dialogarem com esses, e ver se desato esse nó e me encontro nesse mar de frieza que vi.  

Não dá para afirmar que o ataque verb(orrágico)al aos alunos, sobretudo aqueles que decidiram por ocupar por alunos da própria USP intra e extra unidade FFLCH são agressões de fogo amigo. Ingenuidade pensar que existe integralmente respeito na relação entre discentes de unidades distintas, mas não ha um conflito crasso, sim uma tensão permanente que deflagrada vez nunca eclode numa vaga raivosa, na distribuição de rótulos e na imputação de culpas. Isso hoje, isso ontem, o que era circunscrito a piadinhas em rodinha de cerveja vira veredicto para que esse ou outro mereça uma "correção".

“É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado”

Mas, me absurda o fato das mesmas pessoas que criticam esse alunos por atitudes anti-democráticas, por baderna (e os termos das esquerda que são antiquados), são aquelas que não utilizam os instrumentos democráticos de intervenção nas ações da orda de desocupados. Curioso... não comparecem as assembléias, desconhecem ou ignoram as motivações de tanta revolta com a tomada da Tropa de Choque, e numa esquizofrenia seletiva, dizem ter vergonha dos arruaceiros "alunos da USP",  sendo eles também um assim que grassar sua conveniência em estandartizar as mágicas três letrinhas.

Sugiro então que se repense ao usar os termos mimado, molecada, estudantada, porque quando você diz que na Assembléia (que você não foi) não te escutam, clama mais sua necessidade de atenção do que uma vontade de se colocar dignamente perante a situação. Que pífia convicção é a sua sobre o antiquado "perigo vermelho" que toma sua Universidade (sim, sua a extensão da sala da sua casa), que te impede de assistir as aulas, que não te mobiliza para ser ouvido? Esses rebeldes criados a leite de cabra são alunos como você, estudam na Universidade como você, você sabe onde encontrá-los e pode descobrir formas de debater com eles.

Essa preguiça do não debate não é apanágio dos reclamantes das redes sociaise dos portais de mídia, mas acredito que canalizando a fúria que estão denotando pelo linguajar que tratam o problema da segurança na USP, acho que daria uma boa oportunidade de discussão.

Se o problema está na vagabundagem dos insurgidos, revide: escreva, publique, vá para a imprensa, não seja somente uma matraca dela. Denuncie! seja produtivo, porque produtividade é uma qualidade desejável no antípoda do vagabundo. Não?

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidad
ão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês..”


Que bom seria se todos pudessem estudar e ter condições de manter-se sem precisar trabalhar, não é? que ideal seria se essa condição de conforto material se estendesse a todos aqueles em período universitário. Então porque é que o não-trabalho vira qualitativo desabonador? E vou além: seria o ambiente de trabalho um local que talharia o revoltoso em um boi de moenda? E que desgraçado um ambiente de trabalho é esse que se sugere como ambiente "corretivo"? Fico perplexa o quanto o "ora e lavora" (calado) ainda é usado para justificar muitas situações.

É contraditório cobrar atitude dos vagabundos quando quem os desqualifica não toma para si a responsabilidade e a ação de pontuar o que pensa para aqueles que tanto te envergonham. E sua atitude, qual é?

Mas, contradição não parece intimidar, pois parece possível ser contra a depredação de prédios públicos, mas a favor de sarrafo em coletivo de estudantes. Aqui não é desejo que se aplique a lei, é satisfação da sanha de muita porrada e pouca discussão. Que errática definição de público / privado subsidia para aplaudir coerção policial? NENHUM ser humano merece ter tratamento indigno, sobretudo por aquele que deveria auxiliar na JUSTA aplicação da Lei. Mas, aí eu tô sonhando alto, nossa polícia nunca foi muito conhecida por seus bons modos.

Não me incomoda que a polícia tenha sido violenta somente dentro da Cidade Universitária, me incomoda que ela seja sempre, em todos os lugares, e que seu nível de letalidade seja comemorado como uma polícia que protege. Protege a quem? Aceitar que o debate seja surdo para que o confronto seja intenso é de uma covardia paralisante. É dar na mão do Estado a corda para enforcar a toda sociedade. E aplaudindo ainda.

Li muita chacota sobre os pais dos alunos presos terem ido a porta da delegacia. Riram, e vão para a Argentina nas férias e tiram foto com as mães da Praça de Maio. A minha mãe iria se eu lá estivesse, em descompasso dos pais daqueles que foram ensinados a não transgredir, ter boa educação ainda que sob coturnadas. Minha mãe me defenderia porque ela sabe que minhas únicas armas são as palavras e meu senso crítico de reagir e não me calar com o que acho injusto. O mundo que ela desejou que eu tivesse quando crescesse era de fato democrático, eu devo no mínimo brigar para que com todas as pessoas isso seja assim.

Problemas com filhos têm mais ainda as famílias em que a subserviência é prerrogativa. Meus pais me ensinaram a responder até mesmo para eles quando eu sentisse que devia, e isso até hoje. Portanto, não vejo muito sentido nessa distorção de boa educação com rédea. Meus pais teriam vergonha de ter me dado ao invés de bom senso, cabresto.

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

  Além da minha não aceitação desse argumento do ambiente familiar que "ensinou a vida real", ainda elogiam uma educação mecânica, que exige que em ambiente escolar eu deva me calar em nome de uma cândida convivência, em nome de estar na sala, independente do que de mais abjeto estiver acontecendo fora dela... Se você que está "estudando" ininterruptamente nesse período de instabilidade e acha aceitável a ingerência do Reitor, o uso de braços fortemente armados contra pessoas, faz uma leitura midiática como fosse a única e  não consegue perceber a bárbarie que se instala oficialmente agora mas articulada há tempos na Universidade de São Paulo, eu coloco em dúvida a qualidade da sua formação.

Eu me alinho com quem se subleva, porque ainda possui a capacidade de se indignar.

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê...

   

 

 Pensando aqui nos adrianos, daniéis, ricardos, cynthias, bárbaras, andrea(e i)s, rob(in)sons, lines, jorges, que tanto me ensinam todo dia sobre tolerância, sobre discutir e sobre argumentar.   

 

 

...é mais necessário que nunca dizer: Toca Raul!


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Posted by Patricia Pimenta
 

Dos grandes idiotas que já imaginei maiores

Silencio pois não me importa
Silencio porque pouco interessa
Aos diabos quem acha que merece
Meu discurso frouxo com desculpas rotas
Quieto fico pois neutra é uma posição
Espero que acreditem que dela compartilho
Na verdade eu sou um verdadeiro cretino
Que boto caras nas palavras por ser cínico
Me acho grande mas troco letras pra não doer
Não é sincero quando ufano de meu mundo
Faço isso pra desmoronar o seu
Não sou poeta, tampouco boa gente
Mas talvez por minha coragem você venha a se convencer
Que apesar de rimas me faltarem
É tudo que desejo que te faça crer
Que sou poeta
E que os títulos que tenho faço por merecer

Posted by Patricia Pimenta
 

Frases intransitivas

Seria por falta de coragem, de interesse, de consideração, ou essa somatória combinada à incompetência argumentativa, que pessoas adultas usam textos de efeito para encerrrar delicadas questões? (pessoas adultas por já possuir colar de máximas para adornar as suas falas).

Posso dizer que esses excertos servem para muitas situações, destacando-se as afetivas. Se indispor com quem se gosta é uma questão de rompimento com uma imagem positiva que fizeram a nosso respeito. Não é fácil...talhamos anos nosso bom sujeito social com "bons dias" acres, "gosto de você" amargos, "prazer em conhecê-lo" impotentes. 

E não somente com a peculiar etiqueta cotidiana que maquiamos o desdém, usamos frases intransitivas para encerrar questões que nos magoam ou nem nos movem...os envolvidos na situação são consideráveis e caros, já dar explicações é algo que nem sua conhecida e elogiada humildade admite.

Chamo de frases intransitivas todas aquelas que trazem uma verdade comum, àquelas que mesmo em fervorosas discussões subsidiadas de fatos, o sujeito pode sacar seu royal flush de desditos. Esses desditos são seu silêncio na discussão. Falar não significa dizer tudo, mas somente dizer algo.

às favas com seus conceitos e provas...eu tenho sentenças contundentes...

 

Mas, na sanha de entender de verdade o seu ser humano, mesmo dentro de suas esquisitices e atalhos, eu não ando me satisfazendo com explicações mal acabadas. E ainda que tenham um bom verniz vocabular, uma rítmica bonita.

 

Não é suficiente.

 

Toda frase usada para me convencer é transitiva. E espero ter a mesma postura com o outro. Isso é respeito. Embora confesse que facilite as relações com indesejáveis construir um muro pela força da expressão e não uma ponte que favoreça a discussão.

Se você tem um ponto final, eu rompo com um travessão. Não é satisfação a toa, é esclarecimento irrestrito das partes. Pode-se entender que esse irrestrito seja um excesso meu, uma cobrança, uma condicionante para conversar. Mas, honestamente penso que seja uma condição sine qua non para as relações. E não interdito os modos que essa fala tenha, porque entendo que cada indivíduo coloque de uma forma, mas que essa forma exista, e que exista com ela um esforço de me tirar da escuridão da minha própria sugestão. Me diga, não me deixe prever, não raro sou injusta e passional em meus diagnósticos, e por isso, por você me significar, abro espaço para você dizer.

Não me confunda. Polidez não é significa silêncio. Silêncio é abstenção. Então, vou aprender abstenção com você.

Suas esquivas remetem a maldita fé que o tempo cura tudo. Sim, você tem fé. E até nisso.

Meu entendimento sobre sua quietude é muito particular, e pode ferir...pode violar você que acredita e usa como forma de se preservar. Só que ao ver alguém se sufocando na dúvida e sendo engolido pelas sensações, será que você não percebe que isso também é omissão de calma? seu silêncio é para consentir com meu afogamento. E se me afogo...? concordo não ser um problema seu, mas não me socorrer me dá margens de interpretação sobre o quanto importante é pra você que eu me salve logo. Frases fortes, podem ser o rompimento com o silêncio, um cenário que esconda os bastidores dos seus reais sentimentos, para que ouvir seja bálsamo, ainda que placebo, da minha agonia.

Ora, já basta.

Sua gentileza com veludo só remarca sua necessidade de frizar o quanto eu sobrecarrego sua vontade de claramente me explicar.

Fiquemos com a distância então.

Posted by Patricia Pimenta
 

Porque do oposto, tambem acontece. Um novo homem diletante.

Quarta feira.

Um dia comum, mediano na semana, desimportante para feriados.

Novamente ela. não era incomum ser visto com ela. Ao menos, não nesse mês. nos conhecemos a pouco, mas foi fulgaz.

Tinhamos o mesmo ritmo na idéia e no sexo. Tudo fluía, ela nem reclamava, eu adoro mulher assim.

Claro, eu sou um cara moderno, mulher tem que se posicionar, mas se a posição dela ressalta meus pontos fracos, prefiro o agudo dos seus gemidos. Adoro mulher que paga a conta, mas eu gosto de mostrar pra ela que aceito porque sou um cara pra frente, mas se ela quiser, eu posso bancar, afinal, eu sou o cara. Mostro a carteira.

Maravilhoso era quando ela dizia o quanto eu era bom de cama. Porque eu me empenho, bem da verdade, é o mínimo que eu gosto de ouvir. E se ela não gosta também, que procure outro, minha vida amorosa é um eterno sábado a noite, e é até bom que não se apegue, quando goza, mulher ama.

Tava indo tudo muito bem, eu até me peguei pensando nela durante o dia. Nada que eu contasse, senão já rolaria uma aliança. Mulheres e seus mecanismos..mas eu sei lidar com eles: digo que gosto, digo que penso, digo que estou ali. Depois é só não dizer, fingir que não conhece e não ficar ao alcance dos olhos. A tecnologia tá aí pra gente usar, não é verdade? bina, block e unfollow são meios até discretos de decretar dead line.

Mais a mais, se ela vier atrás depois de tudo isso, eu reconsidero a relação (eu não gosto dessa palavra). Se ela se valorizasse, não me ligaria mais. Mas, curioso era que ela ligava. E muito. E chamava minha atençào. E me procurava. Não precisei mais me dar ao trabalho, podia então me concentrar em expandir meu mailing, porque essa já sabia do que eu era capaz, e tava com amor de pica. Ponto pra mim, menos trabalho, prazer conveniente, ela sempre estaria ali. Eu cativo a audiência na horizontal, de pé, eu sou assim, quem quiser que me ame, e não diga que eu menti.

Mas eu não vou ligar pra ela. Já disse, gosto de mulher pra frente, moderna, que sabe o que quer. Depois de muito levar toco, vi que mulher gosta é de sadismo comunicacional, me torna um cara cheio de atividades e amigos pra tomar cerveja todo dia. Por mais que não faça isso sempre, estar na mesa de um bar pode ser somente algo metafórico, só pra ela correr pra não me perder, sou um cara solteiro, bonito e independente, mulherada fácil não falta, e as dificeis eu tento só depois dos 30, quero deixar meu legado pra quem sabe ao menos fritar um ovo.

Se bem que se eu não ligar, que homem sou eu, não?

Liguei. Marquei. Oras, vai que ela me liga no dia que estou com outra? não quero aparentar má vontade, e nem pensar em desculpas, já basta as que dou em casa para minha mãe. Porque eu não saí de casa ainda, e não porque eu não queira, é escolha. Imagine, minha mãe organiza minha vida, ela é super moderna, entende de internet, eu ensinei ela pagar minhas contas e me responder no twitter, ela me entende e me ama.  

Mas, quer saber? eu tô vendo demais essa garota. Eu até demorei mais em cima dela, ela devia me ligar e pensar que sou um cara solidário com seu gozo e educado com suas partes, isso é raro. Sou um cara pra casar, mas não agora, e nem com ela...embora seja bom que ela pense assim só até liberar todas as boas práticas do sexo, aí já digo que nào quero me envolver, tals. Ou nem digo..como eu disse, é só sumir e ponto.

Não fui. Oras, o mundo tá cheio de mulher, e essa aí nem era lá tudo aquilo, eu peguei no susto e tirando pela média. E como ela tá na pista mesmo, ela liga.

Vou ver no blog do Cafa [quando ela nào me quer, devo ignorar?]. Porque o cafa é o cara. Ele sabe como ter mulher e uma fama na internet. Tô bem nessa, cansei de ser mais um.

Ela não ligou.

Ela sumiu.

Deve estar querendo parecer ocupada, mulher é cheia dessas. Eu que sou um cara ocupado, aliás esses 15 minutos que pensei nisso tudo já me renderam um atraso com os amigos. Ok desesperada, então não liga. Gostei do seu sexo, mas eu tenho mão até encontrar outra.

Eu não entendo essas mulheres..querem gozar? eu faço gozar. Querem independência? já tenho minha pós e meu carro, e minha mãe nem liga que eu durma fora de casa. Querem um calhorda? ora, eu sou esse o cara, o Don Juan com memória seletiva... Elas reclamam dos ultra românticos, e eu sou um cara tão moderno. Deve ser a TPM.

 

 

 

Posted by Patricia Pimenta
 

Salivar da sua ousadia

é o que mais forte desejo

Desvendar as intimidades do seu gozo

Mordiscar e umedecer seu plexo

Numa dança finita de quadris

No ritmo eterno de umas das melhores traduções do bom sexo

 

Mulher-chupando-pirulito-05

Posted by Patricia Pimenta